quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Tudo novo de novo

Chegou o e-mail que tanto esperávamos. A clínica nos enviou três perfis de doadoras de óvulos para escolhermos. Não sabia, mas os perfis vêm acompanhados de um questionário extenso respondido pela doadora. Nós dispensamos a foto, mas se soubesse talvez tivesse aberto mão dos questionários também. Que diferença faz se uma doadora prefere viajar para Veneza, enquanto outra tem o sonho de ir pra Disney? Se gosta mais de ver televisão do que de ler um livro? Se o tipo de filme preferido é comédia romântica e terror? O questionário vem até com um recado para os receptores - mas que diferença faz uma mensagem mais afetuosa? Você saberia o que dizer pra receptora dos seus óvulos? Eu não sei se saberia.

Achei essa sensação de escolher horrível. Será que vou sempre ficar pensando "e se tivesse optado pelo outro perfil?".

No nosso caso - e falo exclusivamente por mim e meu marido - acharíamos melhor receber somente o questionário das características físicas. Que na verdade nem importam tanto assim pra gente. Importa muito mais conseguir engravidar e gerar um filho saudável.

Então eu imprimi os três perfis, que imprimi e li e reli no metrô, com a mesma sensação de incômodo a cada vez. À noite, tive um nervous breakdown. Caí em prantos, questionei a decisão, achei que não estaria pronta. Fiquei com medo. Muito medo. De tudo.

Marido ficou triste, mas entendeu. No dia seguinte, me mandou um trecho de um blog que dizia isso:

"Na verdade, o filho idealizado, independente de ser biológico ou não, sempre será o filho irreal, como o próprio nome diz, é o filho ideal, que pertence ao mundo das idéias, e assim, nunca corresponderá ao real, de carne e osso.

O fato da criança ser fruto de ovodoação, se isso estiver bem trabalhado dentro do psiquismo dos próprios pais, em nada difere do filho biológico, afinal, o processo de filiação é puramente emocional, não se relaciona ao link genético, mas sim, à capacidade da pessoa conseguir dar àquela criança um lugar de filho.

Até mesmo os pais biológicos precisam adotar os próprios filhos (embora isso nunca seja falado)."

E eu concordo com tudo isso. De verdade, do fundo do meu coração. Ao longo do dia fui trabalhando melhor a ideia - que já vem sendo trabalhada há um tempo na verdade - e me acalmando. E decidi que ia sim seguir com essa opção.

Enviamos o perfil escolhido e, no retorno, um susto: o custo seria quase 4 vezes mais alto do que estávamos esperando. Porque se não bastassem todas as questões emocionais que envolvem esses processos (FIV, ovodoação, embriodoação etc.), ainda é preciso lidar com o lado financeiro da coisa, o que também não é nada fácil.  O susto de ver o valor foi tão grande porque, há dois meses, a clínica se enganou e nos mandou o custo de embriodoação como se fosse de ovodoação. E ficamos com esse valor na cabeça. 

Não tínhamos ideia que a ovodoação era um processo ainda mais caro que a FIV tradicional. Isso acontece porque arcamos com parte do tratamento da doadora - o que sabíamos, só não imaginávamos cifras tão altas, que realmente fugiam de nossa já totalmente esgotada capacidade financeira. Bateu um desespero, mas íamos tentar dar um jeito. Falamos com a clínica que entendíamos o equívoco, mas que isso havia "nos iludido" quanto ao real valor, que não tínhamos condições de pagar. Eles nos entenderam e concederam um desconto e, mais importante, facilitaram a forma de pagamento, permitindo parcelar em mais vezes. Para se ter ideia, nós ainda estamos pagando as FIVs de 2015 - só terminaremos em abril do ano que vem. É um orçamento familiar totalmente comprometido com esse projeto. Claro que muitas vezes bate um desespero por conta do vermelho no banco, além de uma revolta por esses tratamentos serem tão caros e não serem pagos ou reembolsados por planos de saúde nem disponíveis na rede pública. Sempre penso nas mulheres que querem e não conseguem engravidar e não têm condições financeiras.

Mas é hora de agradecer por nós sermos privilegiados e podermos dar um jeito, adiando outros planos como viagens e mudança para um apartamento maior e mais novo, para tentar, mais uma vez, realizar o nosso sonho de ter um filho. E hora de ficar piegas e reconhecer que na vida nem sempre tudo sai conforme o esperado, mas o importante é ir contornando as adversidades e encontrando meios para ser feliz.

15 comentários:

  1. É... isso só mostra o quanto o filho é desejado mesmo... são muitos sacrifícios a fazer... E o que vc falou é verdade, mesmo quando é filho biológico, passa-se por um processo de "adoção". Por mais que o bebê passe 9 meses na barriga da mãe, ele é um estranho para o casal quando nasce... é uma pessoa que ninguém conhecia antes... Acho que vc está raciocinando pelo caminho certo :)
    Beijos

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  2. Que sensibilidade do seu marido, hein? Achei muito legal...
    Eu teria entrado em panico com o valor...chorar...arrancar os cabelos, mas depois a gente corre atras de alguma coisa a se fazer. Ainda bem que vocês conseguiram!
    Tô torcendo muito aqui!!!
    Beijos

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    1. A gente quase arrancou, Thaís! Tô te devendo a resposta de um email.

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  3. Concordo com você algumas partes, em outras eu gostaria de ter mais informações possíveis do doador. Sobre adotar, como seu marido disse... todos passam por processo de adoção. E financeiramente esses tratamentos são uma loucura. :/ Beijos linda!! e boas festas!!!

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    1. Andie, acho que é totalmente pessoal, cada um sabe o que precisa saber ou não. Beijos, querida. E Feliz ano novo!

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  4. Oi, querida.
    Que alegria saber que está levando adiante esse sonho tão lindo.
    As experiências, mesmo que difíceis, nos enriquecem, e o sabor da vitória, quando tudo se resolver, é ainda maior.
    Deus os abençoe e os dirija nessa jornada.
    Na torcida, sempre!
    Beijos!

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  5. É isso mesmo, foque sua energia na sua possibilidade de refazer a FIV. Em 2017 nossos bebês virão,com a graça de Deus!
    Na super torcida!
    Fique com Deus!
    Beijos
    Ptt (Fiv-Amadurecimento da Alma)
    http://fivamadurecimentodaalma.blogspot.com.br/?m=1

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    1. Obrigada pela torcida de sempre. Feliz 2017! Beijos

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  6. Realmente esses tratamentos saem bem caros mas pensa como eu pensava: Dar graças a Deus por ter essa opção pois mts não tem essa mesma opção ou não tem condições financeiras para tal! Torcendo por vcs!

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    1. Muitos não têm mesmo, Débora. Tenho que agradecer. Beijos

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  7. Oi. Eu tbm tenho falência ovariana. Estou acompanhando sua história. Minha única alternativa de gravidez seria a embriodoação pq estou com menopausa precoce. Mas ainda estamos estudando essa alternativa. Boa sorte.

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    1. Olá Eliane, obrigada pelos eu comentário e por me acompanhar. A ovodoação não seria uma possibilidade para você? Beijos e boa sorte.

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    2. Oi. Estamos refletindo (eu e meu companheiro) sobre as possibilidades. Financeiramente não tenho condições de fazer esses tratamentos. Sou professora, trabalho em escola pública e vejo crianças sofridas e abandonadas precisando de ajuda. Mas eu não conhecia essas alternativas (ovodoação). Vou continuar acompanhando seu blog. Bjs

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